Uma luta perdida? A esquerda brasileira precisa entender o país mais profundamente

A semana termina com a presidente Dilma Rousseff mencionando apenas de passagem, na ONU, o processo de impeachment contra ela conduzido de maneira infamante pelo perfil de grande parte dos que a condenaram na Câmara dos Deputados. A mandatária se referiu brevemente ao “momento grave” do país, professando a fé de que “o povo brasileiro não permitirá retrocessos”.

Por certo, Dilma não tem em mente apenas os programas, mas também os direitos sociais, que como lideranças do Movimento Sindical e dos trabalhadores do campo, operadores progressistas do Direito, além de intelectuais, estes em menor número, estão alertando, tendem a ser derrubados se o PMDB radicalizar a “ponte para o futuro”, realizando a reforma trabalhista dos sonhos do empresariado. O fato perturbador é que as opções do governo levaram a uma recessão que dificulta a resistência à provável gestão de Michel Temer: como viabilizar uma greve geral, por exemplo, com o desemprego aumentando a cada dia?

A esquerda brasileira deve estudar com maior profundidade o cenário pós-hegemonia petista que ficou muito próximo de se configurar. Se, desde 2003, ocorreram avanços, a consciência política constitui uma das dimensões sobre a qual ainda há que agir visando ao longo prazo, o que fica claro diante do perfil direitista do Congresso Nacional. Serve para reflexão, neste aspecto, um excelente texto, de circulação restrita, do professor Marcelo Barbosa, advogado e doutor em Literatura Comparada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

“A Ameaça Conservadora” explica, logo em seu começo, que conservadorismo e reacionarismo apresentam “trajetórias distintas na história das idéias”, não obstante o senso comum equiparar os dois posicionamentos. O leitor constatará a lucidez do autor, ao examinar os trechos aqui reproduzidos.

“Em comportamento algo diverso do restante da América Latina, o liberalismo brasileiro tende à reação. Da velha UDN à atual coalizão PSDB-DEM, sempre expressou (....) os interesses do capital associado (industrial e bancário), da grande empresa rural e das camadas médias urbanas. (Os liberais) pouca dificuldade encontraram para operar a transição do alinhamento ao ‘Ocidente Cristão ´ – durante o período da Guerra Fria – ao apoio ao Consenso de Washington.” Como se pode ver, uma síntese magistral da postura dos segmentos economicamente dominantes e sua intelectualidade orgânica desde os tempos do getulismo, passando pelo golpe militar de 1964 e chegando aos princípios do enxugamento do Estado com as privatizações, da focalização do combate à miséria e a diminuição dos padrões de Bem-Estar para a maioria. Barbosa define assim a essência dos setores reacionários, distinguindo-os dos conservadores.

“Já o conservadorismo nos coloca diante de um estamento patrimonialista, em boa medida composto por elites em decadência, cujo poderio não pode se reproduzir na presença do Estado Mínimo preconizado pelos neoliberais. Para esses estratos (....), que alinham desde o latifúndio clássico (pré-agronegócio) até os representantes de aparatos clientelistas urbanos, a máquina pública não existe para servir de mera repassadora de interesses privados das parcelas mais dinâmicas do capitalismo. O Estado configura o próprio negócio.” Deste modo, o artigo desvenda com exatidão a postura conservadora das frações de classes representadas, especialmente, no PP e no PMDB. Eis os escorpiões que mostraram ao PT sua verdadeira natureza no domingo, 17 de abril, quando, por outro lado, o PSOL (formado por quem rompera pela esquerda com o partido de Lula) defendeu a preservação do mandato da presidente da República. Construir um novo projeto e uma governabilidade completamente diversa daquela que marcou o início do Século XXI, a qual alije as elites decadentes, se tornou o desafio para os “de baixo” e suas lideranças.

Marcelo Dorneles Coelho

No Comments Yet.

Leave a comment

You must be Logged in to post a comment.