Um interessante artigo sobre “a esquerda e a livre iniciativa”

O jornal Zero Hora publicou artigo simples, mas capaz de provocar reflexões, assinado pelo empresário Júlio Ricardo Neto. No texto, é feita a defesa da chamada “esquerda 2.0”, que defenderia a democracia e a livre iniciativa, posicionando-se a favor da diminuição da carga tributária sobre a produção e o consumo, mas também pela derrubada de leis trabalhistas “arcaicas” e de empresas estatais “ineficientes”.

Em que pesem a incompreensão sobre a necessidade de preservar direitos sociais dos assalariados e a falta de foco no fato de que todas as forças políticas expressivas tratam a máquina pública como butim, sacrificando a eficiência para acomodar ocupantes de cargos em comissão e, como vários exemplos demonstram, também para praticar crimes, residindo aí uma imensa parte dos males dos aparatos governamentais, o articulista coloca em pauta preocupações que deveriam estar no horizonte de uma esquerda que precisa se reconstruir no Brasil.

Se as experiências das sociedades pós-revolucionárias comprovaram a impossibilidade do Estado açambarcar toda a economia, estudos históricos e contemporâneos apontam a dinâmica do capitalismo como concentradora de renda, em maior ou menor grau, o que apresenta relação direta com o domínio dos grandes meios de produção por poucos proprietários, nos diferentes ramos da geração de mercadorias e das finanças.

Talvez, esta é uma hipótese para várias análises de muito maior profundidade, o principal conceito que deva passar por formulação das classes trabalhadoras e de intelectuais com elas comprometidos seja o da democratização da propriedade. O caminho, por certo, inclui empreendimentos solidários, a ampliação das cooperativas e o controle social eficaz das instituições a todos pertencentes, entre outros aspectos.

Na realidade do país, o ainda enorme atraso educacional e cultural, a ausência de um sentimento mais sólido de nação e a prevalência dos piores valores, que grassam na periferia do sistema capitalista, constituem enormes obstáculos para que evolua a elaboração de um projeto teórico e político que desenhe tal horizonte estratégico.

Marcelo Dorneles Coelho

No Comments Yet.

Leave a comment

You must be Logged in to post a comment.