A crise europeia e a resistência possível

Um em cada cinco trabalhadores espanhóis está desempregado. Em toda a zona do Euro, mais de 10% da população economicamente ativa já é afetada pela falta de vagas nas empresas. A crise grega já não se concentra mais apenas no berço da civilização ocidental. À direita e à esquerda, intelectuais, especialistas de diferentes áreas e lideranças políticas tentam encontrar respostas. Mais de 15 milhões de pessoas sofrem com a falta de trabalho.

Desde o final de 2008, e o início de 2009, quando os efeitos da retração do mercado norte-americano se espalharam, mesmo governos comandados por partidos progressistas no velho continente – o que não constitui novidade – adotaram medidas previstas no receituário do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Na Espanha, o objetivo da administração de José Zapatero passa por facilitar as demissões e cortar os gastos estatais à custa do funcionalismo público. Segundo o jurista Antonio Baylos, a redução de 5% da massa salarial dos servidores se enquadra em nova ofensiva contra os direitos trabalhistas na Europa, comandada pelos setores empresariais e as organizações que os representam. “O sindicalismo europeu precisa lutar por um novo modelo de bem-estar social e democracia, voltando os olhos para o horror vivido pelas classes populares na Grécia”, explica o pensador da terra de Cervantes.

Na Suíça, parcelas da elite, sempre ciosa da independência de posições adotadas pela nação, agora defendem a entrada no processo de integração continental, com o argumento de que uma resposta à crise, se global, será facilitada. Na Grã-Bretanha, os operários aceitam redução de salários. Os sindicatos patronais e de empregados se uniram para dizer ao governo que, antes de criar novos postos de trabalho, cabe priorizar a preservação dos existentes.

A Luta de Classes “reaparece”

Até expoentes da ideologia liberal, como Thomas Friedman, veem no poder de uma agência de rating, ao classificar a segurança econômica de um país, algo tão destruidor como o arsenal dos Estados Unidos, única superpotência do planeta. O intelectual português Boaventura Santos utiliza o exemplo para se referir ao “fascismo financeiro”.

Em dois artigos, o doutor em Sociologia do Direito comenta a possibilidade deste modelo triunfar definitivamente, destacando que a luta de classes “está de volta à Europa”. Para Boaventura, o conflito permanente de interesses entre a burguesia e o proletariado havia sido institucionalizado através do Estado do Bem-Estar Social, mas agora o FMI quer a derrubada dos direitos das classes trabalhadoras, seguindo a lógica do capital financeiro, quando, para a sobrevivência do capitalismo, as forças produtivas precisariam ser libertadas das amarras dele.

O intelectual europeu apregoa a união dos movimentos sindicais e populares contra a xenofobia, o racismo, a homofobia e a derrubada de mecanismos que asseguraram uma distribuição menos desigual da renda nos países mais desenvolvidos do velho continente. A ofensiva do empresariado, sob pretextos derivados da crise, teria que ser contida.

Até porque a irracionalidade global do sistema se desnudou. O número de milionários cresceu, devido à diversidade de investimentos efetuados por parcelas das classes dominantes. Nos Estados Unidos da América, são aproximadamente dois milhões a mais. Lá, os donos do capital ainda avaliam, com cuidado, o “Pacote Financeiro” da Administração Obama. A Europa reluta em estimular o consumo e o emprego, porque segue o receituário de controlar de forma absoluta o déficit fiscal. Fator que piora o cenário na Espanha, onde diversos setores precisariam de um plano de estímulos para superar a defasagem tecnológica.

Assim, o mundo desenvolvido enfrenta dilemas cruciais. Em meio a uma tendência de forte ceticismo sobre a participação na esfera pública, os EUA não rompem o círculo vicioso da estagnação do consumo e do baixo desemprego, numa situação que o economista premiado Paul Krugman compara com a do Japão dos anos 90. Dos oito milhões de postos de trabalho ceifados pela crise, só meio milhão foi recuperado. Na Inglaterra, pensadores falam em medidas para estimular o associativismo em um complexo de atividades produtivas com predomínio dos monopólios da indústria e do comércio, em detrimento das médias e pequenas redes.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) alerta para uma geração perdida, com um olhar sobre todo o planeta. Ao final de 2009, 81 milhões de jovens entre 15 e 24 anos estavam desempregados, 13% desta faixa etária. 28% não conseguiram sair da pobreza, recebendo menos de um dólar e 25 cents por dia. Encontrar formas superiores de organização social permanece como desafio para as classes baixas e os intelectuais comprometidos com elas.

 

por Marcelo Dorneles Coelho

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